Literatura

Carolina de Jesus: contribuições de uma escritora na década de 50 

Carolina com a 1a. edição do Quarto de despejo

São Paulo, 1960, o povo brasileiro conhece Carolina Maria de Jesus a partir de trechos como esses:


Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes são brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (...) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela. (...) As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários. (JESUS, 2001, p. 52)
E eu pensei no Casemiro de Abreu, que disse: 'Ri criança. A vida é bela'. Só se a vida era boa naquele tempo. Porque agora a epoca está apropriada para dizer: 'Chora criança. A vida é amarga' (JESUS, 2001, p. 32). 

...Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me: - É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. (JESUS, 2001, p. 58)

Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu caráter. (JESUS, 2001, p. 13).


Esses trechos foram retirados da obra Quarto de despejo – diário de uma favelada publicada em agosto de 1960, em São Paulo. É com a publicação de tal obra que Carolina se apresenta ao Brasil, e depois, ao mundo.


O livro Quarto de despejo foi muito lido e questionado na época, pois a autora, Carolina, era uma mulher que frequentou a escola por apenas dois anos, período em que aprendeu a ler e escrever.


Sua história começa em Sacramento, Minas Gerais, em 1914. Descendente de escravos e oriunda de uma família pobre, estudou até o segundo ano primário no Colégio Allan Kardec, primeiro colégio espírita do Brasil, fundado em 1907. Esse pouco tempo de estudo foi possível pela contribuição de Maria Leite Monteiro de Barros, pessoa que oferecia trabalho a sua mãe, como lavadeira.


Como o trabalho era escasso, Carolina e sua mãe saíram de Sacramento em busca de trabalho, transitando por várias cidades.


Em 1947, Carolina, sozinha, chega em São Paulo e passando por muitas dificuldades encontra na favela do Canindé, hoje extinta, um espaço para construir sua moradia. Estando instalada no Canindé, sem trabalho, Carolina começou a atuar como catadora de materiais do lixo destinados à reciclagem.


João José de Jesus, seu primeiro filho, nasceu três meses depois de ela ter se mudado para a favela, e logo depois nasceram José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima. Sendo mãe solteira de três filhos, sua rotina na favela envolvia tarefas como cuidar dos afazeres domésticos como lavar se tivesse água, cozinhar quando havia comida, além de cuidar dos filhos, recolher papéis e...  escrever seu diário.


Na precária vida que levava na favela, Carolina encontra na escrita um refúgio, um espaço para relatar suas aflições, angústias, impressões...


Quarto de despejo – diário de uma favelada foi escrito na forma de um diário iniciado no dia 15 de julho de 1955 e finalizado no dia 01 de janeiro de 1960, segundo o exemplar consultado.


No seu diário registrava fatos cotidianos da favela relatando as brigas, a rotina das pessoas, os preconceitos, comenta dos políticos que estavam no poder naquele momento, das promessas políticas não cumpridas, da diferença social, da fome principalmente, e tudo o que conseguia observar durante os muitos anos que ali viveu e, que foram escritos em uns vinte cadernos sujos que eram recolhidos do lixo por ela.


Carolina foi descoberta pelo jornalista do Diário de São Paulo, Audálio Dantas, que percebendo a riqueza do seu texto começa a buscar formas para publicá-lo, e o consegue através da Livraria Francisco Alves, Editora Paulo de Azevedo Ltda. Em agosto de 1960 o livro foi publicado.


O livro foi recorde de venda no Brasil, 10 mil exemplares no lançamento. Com a polêmica causada pela obra, rapidamente os meios de comunicação divulgaram para o mundo o diário de Carolina, uma favelada. A obra foi traduzida em treze línguas diferentes passando por mais de quarenta países.


A obra Quarto de despejo fez sucesso no período populista denunciando uma realidade oposta à da sociedade letrada do Brasil, sendo escrito por uma mulher negra, pobre, semi-alfabetizada, vivendo em uma favela e mãe solteira. Enquanto o regime populista imperava no país, os escritos de Carolina apareciam antes mesmo da publicação da obra, em jornais e revistas. Quando a publicação aconteceu em 1960, os acontecimentos registrados no diário tiveram grande repercussão e, com o golpe militar de 64, a escrita de denúncia de Carolina perdeu seu brilho.


Segundo os estudiosos Levine e Meihy, a obra não sofreu censuras no período militar, mas a sua escrita era carregada de crítica social e mostrava a realidade de pessoas que foram esquecidas pelo poder público e o período do governo militar, iniciado em 64, evitava essa crítica social. Talvez por isso, as editoras se recusassem a publicar as novas obras de Carolina.


No tocante à crítica social, podemos considerar que a obra Quarto de despejo retratou o descaso social da favela, as falsas promessas políticas, as dificuldades de um povo esquecido, marginalizado, fruto de políticas nada sociais com um livro gerado no interior desse caos representando o poder popular.


Após o sucesso de Quarto de despejo, Carolina publica outras obras:
- Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961)
- Provérbios e Pedaços da Fome (1969)
- Diário de Bitita (1986 – publicado após sua morte)
- Antologia pessoal: Carolina Maria de Jesus (1995 – publicado após sua morte)


Apesar do esquecimento sofrido ainda em vida, seus escritos são fontes de estudo para acadêmicos de diferentes áreas do conhecimento, como o realizado por Levine e Meihy, que originou a publicação Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus.


Em 2006, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, realizou uma exposição sobre a vida e obra de Carolina, que esteve aberta à visitação de junho a julho do mesmo ano. No museu há também uma biblioteca que leva seu nome.


Apesar do sucesso que a obra Quarto de despejo teve na década de 50, Carolina viveu os outros anos de sua vida pobre e esquecida e, somente depois de muitos anos, é possível perceber manifestações de reconhecimento de seus escritos.


Carolina de Jesus e Clarice Lispector